Imaginar o quanto as pessoas estão sofrendo é sempre muito difícil, porque por mais que nos coloquemos no lugar do outro, ainda assim não atingiremos o mesmo patamar na dor. Desta forma, a primeira coisa que vem à cabeça é ajudar, nem que seja com uma palavra, uma presença que passe força ou, melhor ainda, correndo atrás de apoio para reverter a situação. Compaixão, já dizia os antigos escritos deixados por Jesus Cristo como um legado às futuras gerações de simples seres humanos. Tudo bem, sejamos mais compadecidos com nosso próximo. Mas ultimamente uma coisa anda me preocupando e não menos decepcionando: a autopromoção com o sofrimento alheio. Vou ser mais claro.
Em 2008, fortes chuvas assolaram o estado de Santa Catarina e o país inteiro se comoveu com aquela situação. Noticiários revezavam-se na cobertura da tragédia, paralelamente as torrentes que insistiam em não cessar, trazendo consigo morros, plantações, casas, pessoas, sentimentos. Imediatamente, humanos de espírito elevado puseram-se a pensar como ajudar as pessoas dali, já que reverter o acontecido era praticamente impossível. Vidas foram perdidas, outras abstratamente desfiguradas e tantas outras desfiguradas de maneira concreta. Causaram um clamor nacional digno de orgulho e em tão pouco tempo toda nação estava nas ruas com seus agasalhos e cestas básicas enfileirados. Foi lindo ver aquilo. Mas uma coisa me apertava o coração.
Logo ao me deparar com aquela situação, pensei comigo mesmo que algumas coisas ali não faziam muito sentido. E senti até raiva de mim mesmo por pensar daquela forma, mas resolvi organizar minhas idéias primeiro. Pense comigo, ver aquelas criancinhas de olhos azuis e pele clarinha órfãs, idosos entre as estatísticas de mortes trágicas por soterramento, modelos de futuro promissor sendo salvas quase por milagre e não fazer nada não dá. Mas se lembrarmos que há anos no Norte e Nordeste do país existem criancinhas de pele escura, amarela, clarinha e olhos que quase não percebemos mais que têm cor, idosos entre estatísticas de mortes trágicas por inúmeros fatores e pessoas que têm - e outras tantas que nunca tiveram - futuro promissor, morrendo de fome e sede, por catástrofes naturais ou não, abandonadas pelos governos e pelas suas políticas falidas, que nunca tiveram planos infalíveis para suas situações, chega a dar nojo de certas atitudes que, olhando bem, soam como sensacionalismo.
Não quero dizer que sou contra tudo que foi feito no sul do país. Não, não mesmo. Sou completamente a favor da solidariedade. Mas, convenhamos, que seja feito o mesmo esforço para ajudar todos. Nesse caso, metade da metade é no mínimo privilegiar um em desfavor do outro. Isso é mesmo assim, tão puro? Então me aprofundarei mais no assunto. Rapidamente foram levantados milhares de alimentos, roupas, prestadores de serviço. E após 15 dias de clamor público o que achamos quando metade das câmeras de TV foram desligadas? Alguns dos que estavam lá para ajudar se acharam no direito de tirar algumas das doações para si. Entre estes estavam prefeitos, membros de organizações não governamentais e, infelizmente, militares (do exército). Que vergonha eu senti aquele dia, quando o Jornal Nacional anunciou este envolvimento. O pior é que desde o início todos eram unânimes em dizer que estavam ali com as melhores intenções. Era tão bonito de ver e agora é difícil perceber que foi só um novo escândalo no congresso acontecer para que as câmeras saíssem de lá voando direto para Brasília. Isso me faz perder cada dia mais a credibilidade nas palavras das pessoas. Pior ainda é ver a cada dia uma nova bomba estourando quando alguém descobre mais um desvio das arrecadações feitas para Santa Catarina. E enquanto isso, como vão as vítimas da seca no Nordeste? Como vão as vítimas do abandono político no Nordeste? No Brasil de muitas regiões, parece que o povo, enquanto membro da unidade federativa, também não é um só.
Por Leonardo Lemos